domingo, 30 de junho de 2019

Nicolai Berdiaev

Nicolai Berdiaev, pensador religioso russo, nasceu em 1874 e morreu em 1948. Como alguns dos nobres de seu tempo, associou-se à causa revolucionária, no início do século, lutando contra a tirania czarista. Com a vitória da revolução soviética, Berdiaev foi nomeado professor de filo da Universidade de Moscou, mas foi exilado para Paris em 1922, diante da sua rebeldia em aceitar totalmente a doutrina marxista. Preocupou-se muito com a questão da liberdade individual. Escreveu "A Nova Idade Média", "Solidão e Sociedade" e "Escravidão e Liberdade", de onde foi adaptado este texto (capítulo II).
homem procura a liberdade. Dentro dele existe uma poderosa força que o empurra em direção à liberdade mas, no entanto, o ser humano facilmente despenca na escravidão.
Existem três condições humanas, três diferentes estruturas de consciência, distinguidas sob os nomes de "senhor", "escravo" e "homem livre". Senhores e escravos são correlativos. Não podem existir independentemente. O homem livre, porém, pode existir individualmente -possui suas próprias qualidades, sem estar preso a correlações de oposição.
O mundo da escravidão é o mundo do espírito que se aliena de si mesmo. A exteriorização é a fonte da escravidão, enquanto que liberdade é conseqüência da interiorização. No mundo objetivado em que vivemos, o homem só consegue ser relativamente livre e, não, absolutamente livre. Esta semi-liberdade resulta de conflitos e resistências às necessidades colocadas diante dele. A liberdade resultante da necessidade não é liberdade real, é apenas um elemento na dialética da necessidade.
O homem não deve almejar ser amo e senhor mas aspirar em converter-se em homem livre. A submissão de outros homens traz sempre a própria submissão. Quem escraviza é escravo. O amo é a figura do escravo ao contrário. Prometeu era um homem livre e um libertador, enquanto que o ditador é um escravo escravizador. A aspiração de poder é um desejo vil. Cristo é o protótipo do homem livre, César é o exemplo do escravo do mundo, submetido ao desejo de poder, percebendo apenas a vocação das massas para torná-lo senhor. Mas os servos também derrubam os amos e os césares. Liberdade é libertação não apenas dos opressores mas dos outros escravos igualmente. A condição de senhor é determinada por necessidades externas, não é uma imposição de personalidade, é uma injunção. Somente o homem livre é uma personalidade. Os demais são arranjos.
A queda do homem se expressa na sua inclinação para tiranizar. O homem tende à tirania, seja em grande ou pequena escala, se não como governante, como marido, pai. O homem tiraniza com ódio e com amor. Sobretudo, tiraniza-se a si próprio. Esta autotirania se manifesta através de uma falsa consciência de culpa. Uma consciência de culpa verdadeira tornaria o homem livre. Mas, atormentado por falsas culpas, produz insalubre auto-estima que o tiraniza nos projetos e visões. A exploração do homem pelo homem, que Marx considera o demônio fundamental da sociedade humana, é um derivativo, só ocorre quando se encontram homens dispostos intimamente a exercer este poder. Um homem verdadeiramente livre não deseja comandar os demais, mesmo que as condições o favoreçam. O líder das massas está no mesmo estado de servidão da massa - ele não tem existência autônoma alguma fora da massa. Sem os escravos, não se pode desempenhar o papel de senhor. Sem senhores, não há escravos. Este é um jogo duplo.
César - ditador, herói do desejo imperialista, não pode limitar-se nem interromper. Prossegue insaciavelmente sempre em direção à perdição, é um escravo do seu destino glorioso. Mas o homem pode ser escravizado também através de violências que não são físicas.
Sugestões e condicionamentos a que são submetidos homens desde sua infância fazem deles escravos. Um sistema educacional errôneo pode extrair totalmente de um homem sua capacidade de ser livre nos seus julgamentos e apreciações.
Violações, torturas e assassinatos são fraquezas. Não são poder. Os grandes valores da humanidade são sempre menosprezados. O policial e o sargento são sempre mais fortes do que poetas e filósofos. Escravos e senhores triunfam sempre sobre os homens livres, pois no mundo objetivado e exteriorizado ama-se o finito, ninguém agüenta o infinito.
A verdade está sempre ligada à liberdade. Escravidão está subordinada à negação da verdade. O amor à verdade é o triunfo sobre o medo escravizador. O homem primitivo pulsando dentro do homem moderno é dominado pelo medo. Medo e escravidão são passivos. A vitória sobre a escravidão é obtida com atividade criativa. O homem não vive apenas no tempo cósmico e histórico, mas também no tempo existencial. Vive igualmente fora da objetividade que construiu em torno de si, para aprisionar-se.
Homens livres têm uma responsabilidade: escravos não podem preparar um novo reinado, pois a revolta de escravos estabelece sempre novas formas de escravidão.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

São João Crisóstomo (345-407)

São João Crisóstomo (345-407) - Presbítero - Bispo Doutor da Igreja. 

Coloca-a no candelabro. 

Não há nada mais insensível do que um cristão que não se aplica em salvar os outros. Não podes argumentar sobre isto com o pretexto da pobreza: a viúva que deu as suas duas moedinhas levantar-se-ia para te acusar (Lc 21,2). Pedro também, pois dizia: Não tenho ouro nem prata (Act 3,6). Assim como Paulo, que era tão pobre que frequentemente passava fome e carecia de bens necessários (1Cor 4,11). Também não podes objetar com o teu nascimento humilde: também eles eram de modesta condição. A ignorância não te será melhor desculpa: também eles eram iletrados. Não invoques igualmente a doença: Timóteo era dado a frequentes indisposições (1Tim 5,23). Qualquer um pode ser útil ao seu próximo se quiser fazer aquilo que lhe for possível. 

Não digas que te é impossível reconduzir os outros ao bom caminho porque, se és cristão, é impossível que tal não se faça. Cada árvore carrega o seu fruto (Mt 7,17s) e, como não há contradição na natureza, o que dizemos é igualmente verdade, porque tal deriva da própria natureza do cristão. É mais fácil a luz ser trevas do que o cristão não brilhar.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Tomás de Kempis (1380-1471) - Monge.


Imitação de Cristo - Tomás de Kempis (1380-1471) - Monge.


Não se há de dar crédito a toda palavra nem a qualquer impressão, mas cautelosa e naturalmente se deve, diante de Deus, ponderar as coisas. As almas perfeitas, porém, não creem levianamente em qualquer coisa que se lhes conta, pois conhecem a fraqueza humana inclinada ao mal e fácil de pecar por palavras. 
Grande sabedoria é não ser precipitado nas ações, nem aferrado obstinadamente à sua própria opinião; sabedoria é também não acreditar em tudo que nos dizem, nem comunicar logo a outros o que ouvimos ou suspeitamos. Toma conselho com um varão sábio e consciencioso, e procura antes ser instruído por outrem, melhor que tu, que seguir teu próprio parecer. A vida virtuosa faz o homem sábio diante de Deus e entendido em muitas coisas. Quanto mais humilde for cada um em si e mais sujeito a Deus, tanto mais prudente será e calmo em tudo.

domingo, 23 de junho de 2019

São Padre Pio de Pietrelcina

O lugar do combate espiritual 

O lugar do combate entre Deus e Satanás é a alma humana em cada instante da vida. É por conseguinte necessário que a alma dê livre acesso ao Senhor, para que Ele a fortaleça de todas as maneiras e com todo o tipo de armas. Deste modo, a luz de Deus poderá iluminá-la, para melhor combater as trevas do erro. Revestida de Cristo (Gal 3, 27), da sua verdade e da sua justiça, protegida com o escudo da fé e da palavra de Deus, ela vencerá os seus inimigos, por muito poderosos que estes sejam (Ef 6, 13). Mas, para uma pessoa se revestir de Cristo, tem de morrer para si mesma.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Os Fioretti de São Francisco

Os Fioretti de São Francisco - (Fioretti - Significa “florezinhas”. Elas foram escritas em italiano antigo do século XIV e eram Histórias contadas, passando dos discípulos de São Francisco até o século XIV, quando foram colocadas por escrito).

Como S. Francisco, por um mau pensamento que teve contra Frei Bernardo, ordenou ao Frei Bernardo que por três vezes lhe pisasse a garganta e a boca.

O devotíssimo servo do Crucificado, São Francisco, por causa da aspereza da penitência e contínuo chorar, ficara quase cego e quase não via o lume.

Uma vez, entre outras, partiu do convento, onde estava e foi ao convento onde vivia Frei Bernardo, para com ele falar das coisas divinas e, chegando ao convento, soube que ele estava na floresta em oração, todo enlevado e absorvido em Deus. Então São Francisco foi à floresta e o chamou: "Vem, disse, e fala a este cego"; e Frei Bernardo não lhe respondeu nada, porque, sendo homem de grande contemplação, tinha a mente suspensa e enlevada em Deus, e porque tinha a graça singular de falar de Deus, como São Francisco tinha por vezes experimentado: e portanto desejava falar com ele.

Depois de algum tempo, chamou-o do mesmo modo, segunda e terceira vez; e de nenhuma vez Frei Bernardo o ouviu, por isso não lhe respondeu e não se foi a ele. Pelo que São Francisco se partiu um pouco desconsolado; maravilhando-se e lastimando-se só consigo de que Frei Bernardo, chamado por três vezes, não lhe fora ao encontro.

Partindo-se com este pensamento, São Francisco, quando se afastou um pouco, disse ao seu companheiro: "Espera-me aqui". Distanciou-se para um lugar solitário e, pondo-se em oração, rogava a Deus que lhe revelasse por que Frei Bernardo não lhe havia respondido; e assim estando, veio uma voz de Deus que lhe disse assim: "Ó pobre homenzinho, por que estás perturbado? deve o homem deixar Deus pela criatura? Frei Bernardo, quando o chamaste, estava junto de mim; e portanto não podia vir ao teu encontro, nem te responder; não te admires, pois, de que ele te não pudesse responder; porque estava tão fora de si que de tuas palavras nada escutou". Tendo tido São Francisco esta resposta de Deus, imediatamente com grande pressa voltou a Frei Bernardo, para acusar-se humildemente do pensamento que tivera contra ele.

E Frei Bernardo, vendo-o vir para ele, foi-lhe ao encontro e lançou-se-lhe aos pés. Então São Francisco o fez levantar-se e referiu-lhe com grande humildade o pensamento e a perturbação que tivera contra ele, e como Deus lhe havia respondido, assim concluindo: "Ordeno-te pela santa obediência que faças o que te mandar".

Temendo Frei Bernardo que São Francisco lhe ordenasse alguma coisa excessiva, como fazia com frequência, quis honestamente esquivar-se desta obediência, e assim respondeu: "Estou pronto a obedecer-vos, se me prometerdes de fazer o que eu vos ordenar a vós". E prometendo São Francisco, Frei Bernardo disse: "Ora, dizei, pai, o que quereis que eu faça".

Então disse São Francisco: "Ordeno-te pela santa obediência que, para punir a minha presunção e a ousadia do meu coração, quando eu me deitar de costas, me ponhas um pé na garganta e outro na boca e assim passes sobre mim três vezes, envergonhando-me e vituperando-me e especialmente dizendo-me: 'Jaz para aí, vilão filho de Pedro Bernardone: de onde te vem tanta soberba, vil criatura que és?"' Ouvindo isto, e bem que lhe custasse muito a fazê-lo, no entanto por santa obediência, o mais cortesmente que pôde, realizou o que S. Francisco lhe ordenara.

Isto feito, disse São Francisco: "Ora, ordena-me o que queres que eu faça; porque te prometi obedecer". Disse Frei Bernardo: "Ordeno-te pela santa obediência que, todas as vezes que estivermos juntos, me repreendas e corrijas asperamente dos meus defeitos".

Do que São Francisco muito se maravilhou; porque Frei Bernardo era de tanta santidade que ele lhe tinha grande reverência e não o reputava repreensível em coisa nenhuma; e por isso dali em diante São Francisco evitava de estar muito com ele, pela dita obediência, a fim de não dizer alguma palavra de correção contra ele, o qual reputava de tanta santidade; mas, quando sentia vontade de vê-lo ou de ouvi-lo falar de Deus, dele se separava o mais depressa possível e se partia; e era motivo de grande devoção ver-se com que caridade e reverência e humildade o santo Pai Francisco tratava e falava com Frei Bernardo, seu filho primogênito.

Em louvor e glória de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

São Bernardo de Claraval (1090-1153)

São Bernardo de Claraval (1090-1153).

"Existe indubitavelmente uma espantosa analogia entre o azeite e o nome do Amado, pelo que a comparação apresentada pelo Espirito Santo não é arbitrária. A não ser que possais sugerir algo de melhor, afirmarei que o nome de Jesus possui semelhança com o azeite na tripla utilidade deste último, nomeadamente, para iluminar, na alimentação e como lenitivo. Mantém a chama, alimenta o corpo, alivia a dor. É luz, alimento e medicina. Observai como as mesmas propriedades podem ser encontradas no nome do noivo divino. Quando pronunciado fornece luz; quando meditado, alimenta; quando invocado, serena e abranda".

Miguel de Molinos (1628-1697)

Miguel de Molinos (1628-1697) - Místico e Sacerdote Católico - Conhecido pelo estabelecimento e sistematização do Quietismo.

O Quietismo sustenta que a alma deve fazer silêncio, deve praticar a quietude total para chegar a Deus. Neste estado de "quietude" proposto pela escola de Molinos, a mente fica completamente inativa, já não pensa ou quer por conta própria, mas permanece passiva, enquanto Deus opera nela.

Segundo o filósofo alemão Frithjof Schuon, o Quietismo de Molinos apresenta traços do qual podem ser encontrados em São Francisco de Sales, Doutor da Igreja e autor do clássico da espiritualidade cristã Filoteia: Introdução à vida devota.

Pensamento do Padre Miguel de Molinos:

“Veste-te desse nada, dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada seja teu contínuo sustento e morada, até aprofundar-te nela; eu te asseguro que, sendo tu desta maneira o nada, seja o Senhor o todo em tua alma”.

Filoteu - O Sinaíta

Filoteu - O Sinaíta (Monge do Mosteiro de Batos e herdeiro do pensamento de São João Clímaco - Data desconhecida).

"Há uma guerra secreta, na qual os espíritos maus guerreiam contra a alma, por ação dos pensamentos.Como a alma é incorpórea, esses poderes do mal atacam-na imaterialmente, conforme sua natureza. Vê-se afrontarem-se armas e frentes de batalha, ciladas e combates terríveis; há lutas corpo a corpo, e as vitórias e derrotas são repartidas. Falta um único ponto de semelhança à guera espiritual: a declaração das hostilidades... Ela explode repentinamente, sem aviso prévio; por incursão nas profundezas do coração, surpreende a alma numa emboscada mortal. Por que esses assaltos? Para impedir-nos de cumprir a vontade de Deus, conforme a oração: 'SEJA REALIZADA A TUA VONTADE' (Mt 6, 10), isto é, os mandamentos. Quem guarda atentamente o espírito contra o erro, por meio da sobriedade, observa com perspicácia os assaltos e as contendas em torno das imaginações. Esse é o fruto de uma longa experiência".

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Padre Francesco Bemonte

Padre Francesco Bemonte - Presidente da Associação Internacional de Exorcistas. São Pio de Pietrelcina, como também o beato carmelita e...