terça-feira, 11 de março de 2014

Tertuliano - Apologia - Capítulo X

TERTULIANO : APOLOGIA

Tertuliano nasceu em Cartago no ano 155 dC e aí exercia sua profissão de advogado quando, em 193, converteu-se ao Cristianismo, passando a exercer também a atividade de catequista junto à Igreja.

Sua inteligência e sólida formação jurídica foram claramente demonstradas em suas obras, em que defende os cristãos, apelando por seu direito de liberdade religiosa, perante o Império Romano cruel e perseguidor. Seus argumentos são expostos de forma lógica e polêmica, visando o convencimento das autoridades a quem é dirigida, questionando a "justiça" aplicada contra os cristãos, transportando a apologética do terreno filosófico para o jurídico.

"Com admirável habilidade, Tertuliano censura os processos jurídicos, em voga, do Poder do Estado 'gentio' contra os cristãos: é suficiente o crime do 'nomem christianum' ('nome 'cristão'), para acarretar a condenação. A todos os criminosos concede-se o direito de defesa; aos cristãos, não. Àqueles, a tortura tenta arrancar uma confissão; aos cristãos, uma apostasia. As suspeitas iníquas espalhadas contra os cristãos, Tertuliano as repele como mentiras, expondo, em contraposição, o essencial concernente à fé cristã e à vida das comunidades. Concluindo, declara ser o Cristianismo uma filosofia; mas os filósofos gentios não são obrigados, como os cristãos, a sacrificar e podem até negar os deuses impunemente. Todavia, as crueldades gentílicas não prejudicarão os cristãos; ao contrário, 'o sangue dos cristãos é como semente que brota'" (B.Altaner/A.Stuiber).

"Raramente um discurso de defesa cristão conhecera semelhante precisão de argumentos jurídicos, semelhante rudeza de ironia, semelhantes aspereza de lógica, onde os argumentos são desferidos como golpes certeiros, as fórmulas marteladas, os dilemas inelutáveis, sem concessões à posição dos poderes públicos ou dos filósofos. Para ele [Tertuliano] não basta convencer o adversário: arrasa-o, pisa-o, humilha-o" (A.Hamman).
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Capítulo X - "Vós nos acusais: 'Não adorais os deuses e não ofereceis sacrifícios aos imperadores'"

Sim, não oferecemos sacrifícios a outros pela mesma razão pela qual não os oferecemos a nós mesmos, ou seja, porque vossos deuses não são, de modo algum, referenciais para nossa adoração. Por isso, somos acusados de sacrilégio e de traição. Esse é o principal fundamento de vossa perseguição contra nós. Sim, é toda a razão de nossa ofensa. É digna, então, de exame a respeito, se não forem nossos juizes a prevenção e a injustiça, pois a prevenção não leva a sério descobrir a verdade, e a injustiça a rejeita simples e totalmente.

Não adoramos vossos deuses porque sabemos que não existem tais divindades. Eis o que, portanto, deveríeis fazer: deveríeis nos intimar a demonstrar a inexistência delas, e, então, provar que elas não merecem adoração, pois somente se vossas divindades fossem comprovadamente verdadeiros deuses, haveria toda obrigação de lhes serem rendidas homenagens divinas.

Punição, igualmente, mereceriam os cristãos, se ficasse evidente que aqueles aos quais recusam adoração são verdadeiramente divinos. Vos dizeis: são deuses. Nós negamos e apelamos para vosso próprio entendimento a respeito. Que ele nos julgue, que ele nos condene, se é incapaz de negar que todas essas vossas divindades não passam de pessoas humanas.

Se vosso entendimento se atreve a negar isso, será refutado por vossos próprios livros de histórias primitivas, pelos quais tomou ciência delas, pois esses livros se constituem incontestáveis testemunhas até nossos dias, seja das cidades onde elas nasceram, seja das regiões nas quais elas deixaram marcas de suas andanças, bem como, comprovadamente elas foram enterradas.

Examinarei agora, um por um, a esses vossos deuses tão numerosos e tão diferentes, novos e antigos, gregos, romanos, estrangeiros, de escravos e de adotados, privados e públicos, machos e fêmeas, rurais e urbanos, marítimos e militares? Não. É inútil até pesquisar todos os seus nomes, de modo que me contento com um resumo, e isso não para vossa informação, mas para que tenhais em mente o que colocastes em vossa coleção, porque indubitavelmente agis como se tivésseis esquecido tudo sobre eles.

Nenhum de vossos deuses é mais antigo do que Saturno. Dele fizestes provir todas as vossas divindades, mesmo aquelas de maior dignidade e mais conhecidas. O que, então, puder ser provado sobre o primeiro, poderá ser aplicado àqueles que dele provieram.

De tempos tão primitivos quanto nos informam os livros, nem o grego Diodoro ou Thallos, nem Cássio Severo nem Cornélio Nepos, bem como nenhum outro escritor que escreveu sobre as coisas sagradas primitivas, se aventurou a dizer que Saturno era alguém mais senão um homem. Tanto quanto esse assunto depende dos fatos, nada mais encontro digno de fé do que isso: sabemos o local no qual Saturno se estabeleceu na própria Itália, após muitas expedições e após compartilhar da hospitalidade da Ática, obtendo cordiais boas vindas de Jano ou Janis como os Sálicos o chamavam. A montanha na qual ele morou foi chamada Satúrnio. A cidade que ele fundou foi denominada Satúrnia até aos nossos dias. Por fim, toda a Itália, após ter surgido com o nome de Enótria, foi chamada Satúrnia por causa dele. Foi ele que por primeiro vos ensinou a arte de escrever e de cunhar moedas. Daí, aconteceu que ele passou a governar o Tesouro Público.

Mas, se Saturno foi um homem, teve, sem dúvida, uma origem humana e tendo uma origem humana não foi rebento nascido do céu e da terra. Como seus pais eram desconhecidos, não era incomum que tenha se chamado filho desses elementos dos quais nós todos parecemos nos originar.

Quem não fala do céu e da terra como de um pai e de uma mãe numa forma de veneração e homenagem? Não há até o costume, ainda existente entre nós, de dizer que alguém que nos é estranho ou que surgiu inesperadamente em nosso meio caiu dos céus? Do mesmo modo, aconteceu com Saturno, onde apareceu como um hóspede repentino e inesperado - porque o hóspede recebe em todo o lugar a designação de nascido do céu. Mesmo a tradição popular chama de filhos da terra as pessoas de parentesco desconhecido.

Eu não sei quantos homens naqueles tempos primitivos eram levados a assim procederem quando admirados pela visão de alguém estranho que surgia em seu meio, considerando-o divino, já que naquelas eras distantes até homens de cultura transformavam em deuses pessoas que eles sabiam terem morrido como homens, um dia ou dois antes, movidos pela tristeza geral que lhes acometia.

Que essas observações de Saturno, tão concisas como são, sejam suficientes. Assim, também, pode-se provar que Júpiter era certamente homem, já que nascido de homem, e que uma após outra, todas essas divindades eram mortais como o primitivo rebento.

VIVAT CHRISTUS REX


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