domingo, 30 de março de 2014

Sodoma e Gomorra

Paz e Bem.

Embora Sodoma e Gomorra, narrado no livro do Gênesis, seja muito conhecido, convém recordá-lo aqui para quem não o tenha à mão.

Deus apareceu a Abraão, junto com dois anjos (todos em forma humana), e lhe anunciou que, apesar da avançada idade, ele teria um filho. Abraão acolheu-os e fez com que Sara, sua mulher, lhes desse de beber e comer. E tendo sido servidos, levantaram-se todos e “voltaram os olhos para Sodoma; e Abraão ia com eles, acompanhando-os. E o Senhor disse [para Si mesmo]: Acaso poderei eu ocultar a Abraão o que estou para fazer, visto que ele há de vir a ser pai de uma nação numerosíssima e poderosíssima, e que todas as nações da Terra hão de ser benditas nele? [...] Disse, pois, o Senhor: O clamor de Sodoma e Gomorra aumentou, e o seu pecado agravou-se extraordinariamente” (Gen 18,16-20).
Os dois anjos prosseguem o caminho até Sodoma, e Abraão fica com o Senhor. Entendendo que Deus iria castigar a cidade, onde residia seu sobrinho Lot, Abraão procura salvá-lo. A cena é comovedora. Diz Abraão ao Senhor: “Perderás tu o justo com o ímpio? Se houver cinqüenta justos na cidade, perecerão todos juntos? E não perdoarás aquele lugar por causa dos cinqüenta justos, se os houver? (...) E o Senhor disse-lhe: Se eu achar no meio da cidade cinqüenta justos, perdoarei por amor deles toda a cidade” (Gen 18, 23-26). Abraão percebe que jogou alto demais, e vai rebaixando o número de justos de 50 para 45, depois para 40, depois para 30, para 20 e chega até 10!... “E o Senhor disse: Não a destruirei por amor aos dez. O Senhor retirou-se, depois que cessou de falar com Abraão e Abraão voltou para a sua tenda” (Gen 18, 32-33). Abraão compreendeu que sua intercessão fora infrutífera, não pela falta de desejo do Senhor em atendê-lo, mas porque não havia sequer dez justos em Sodoma...
“À tarde, chegaram os dois anjos a Sodoma, quando Lot estava sentado às portas da cidade. E ele, tendo-os visto, levantou-se, e foi ao seu encontro, prostrou-se por terra e [...] instou com eles para que fossem à sua casa; e depois que entraram, preparou-lhes um banquete, e fez cozer uns pães ázimos, e eles comeram. Mas antes que fossem deitar, os homens da cidade, desde os jovens até os velhos, e todo o povo junto com eles, cercaram a casa. E chamaram por Lot e disseram-lhe: Onde estão aqueles homens que entraram em tua casa ao cair da noite? Faze-os sair para que os conheçamos” (Gen 19, 1-5). Linguagem cheia de pudor da Bíblia para indicar que queriam abusar deles. Lot sai, e tenta dialogar com os facínoras, alegando o direito de proteção aos hóspedes, ao qual estava obrigado. Chega ao extremo de oferecer suas filhas. É maltratado pela turba, que queria mesmo os homens... Tentam arrombar a porta, quando os anjos puxam Lot para dentro, e fecham a porta. “E [os anjos] feriram de cegueira os que estavam fora, desde o menor até o maior, de sorte que não podiam encontrar a porta” (Gen 19, 11). Lot e os seus estavam, de momento, salvos.

Não obstante, Lot move-se com displicência.

Segue-se uma batalha inesperada: a dos anjos para retirar Lot e os seus da cidade maldita... “E disseram a Lot: Tens aqui alguns dos teus? Genro ou filho, ou filhas, faze sair desta cidade todos os que te pertencem, porque nós vamos destruir este lugar, visto que o clamor [dos seus crimes] aumentou diante do Senhor, o qual nos enviou para que os exterminemos” (Gen 19, 12-13).
Lot sai para buscar os genros que estavam para se casar com suas filhas, mas estes tomaram o aviso como se Lot estivesse zombando deles. O próprio Lot movia-se com displicência: “Ao amanhecer, instavam os anjos com Lot dizendo: Levanta-te, toma tua mulher e as duas filhas que tens; não suceda que também pereças na ruína da cidade. E como ele hesitasse, pegaram pela mão a ele, a sua mulher e as suas filhas, porque o Senhor queria salvá-lo. E o tiraram de casa, e o puseram fora da cidade; e aí lhe falaram, dizendo: Salva a tua vida; não olhes para trás, e não pares em parte alguma dos arredores deste país; mas salva-te no monte, para que não pereças com os outros” (Gen 19,15-17). Lot ainda contemporiza e pede para ir para uma pequena cidade próxima, onde diz que se sentiria mais seguro. “E o Senhor disse-lhe: Eis que, ainda nisso, eu ouvi os teus rogos, para não destruir a cidade a favor da qual me falaste. Apressa-te e salva-te lá, porque não poderei fazer nada enquanto tu lá não tiveres entrado” (Gen 19, 21-22). “E o sol levantou-se sobre a Terra, quando Lot entrou em Segor [a pequena cidade, da qual falara]. Fez pois o Senhor chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu, [vindo] do Senhor; e destruiu estas cidades, e todo o país em roda, todos os habitantes das cidades, e toda a verdura da terra. E a mulher de Lot, tendo olhado para trás, ficou convertida numa estátua de sal” (Gen 19, 24-26).
Sodoma e Gomorra são, pois, casos paradigmáticos da aversão de Deus ao pecado de homossexualismo, que na lei mosaica era castigado com a morte (Lev 18, 22; 20, 13; Deut. 23, 18-19).

Pecado que brada aos Céus por vingança.

Tampouco o Novo Testamento é menos radical na condenação da prática do homossexualismo. São Paulo afirma claramente que os sodomitas não entrarão no Reino dos Céus: “Porventura não sabeis que os injustos não possuirão o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o Reino de Deus” (I Cor. 6,9-10). Ver também (I Tim 1, 8-11).
Por isso o Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã enumera, entre os pecados que bradam ao Céu e pedem por vingança de Deus, o “pecado sensual contra a natureza”. É assim que é designado, na Moral católica, o pecado de homossexualismo.
O tema é extenso e não cabe nos limites desta coluna. Sem dúvida, a constituição física de determinadas pessoas as pode inclinar afetivamente para outras do mesmo sexo. Elas não são culpadas por isso, mas incumbe-lhes a mesma obrigação de castidade. E com a ajuda da graça de Deus, obtida pela oração, freqüência aos sacramentos e fuga das ocasiões, elas podem coibir os movimentos desordenados de sua predisposição física e manterem-se castas.
É claro que as pessoas da família, sobretudo os pais, devem ajudá-las e tratá-las com caridade, o que não significa tolerar qualquer infração do 6° Mandamento da Lei de Deus, o qual obriga à castidade.
Se, em outra hipótese, essa tendência antinatural decorrer de uma educação mal orientada ou de um ambiente viciado, elas devem ser corrigidas também com os desvelos da caridade cristã, mas sem fraquezas nem condescendência alguma relativa às práticas contrárias à natureza.
Mas, para os que se entregam a esses atos — e são muitíssimos —, vale o julgamento terrível do Catecismo, há pouco lembrado: eles bradam ao Céu e atraem a cólera de Deus. O exemplo da destruição de Sodoma e Gomorra está aí para ser sempre lembrado...
Espero que os lineamentos gerais da questão, aqui apresentados de forma muito sumária, ajudem o missivista a encontrar por si a solução das situações concretas com que venha a se defrontar.
VIVAT CHRISTUS REX



quinta-feira, 27 de março de 2014

Paciência

PACIÊNCIA.

Paciência é a virtude pela qual suportamos os infortúnios deste mundo com tranquilidade de espírito, para que em razão deles não fiquemos desnecessariamente perturbados ou entristecidos interiormente, e não nos permitamos fazer nada de errado ou de inadequado. As adversidades desta vida que a paciência suporta são doenças, desterros, angústia psicológica, desgraça, escárnio, maltrato, insultos, calúnias, reprimendas, fome, sede, frio, as mortes dos pais e dos filhos, dos parentes e dos amigos, massacres e calamidades públicas, e outras coisas da mesma espécie que geralmente ocorrem todos os dias. A longanimidade é a parte da paciência que fortalece o espírito contra o aborrecimento ocasionado pela demora em receber algo que esperamos. Ela difere da paciência por suportar males por um longo tempo e aguardar consolação postergada por muitos dias, meses e anos. Assim Deus é chamado longânime, porque Ele tolera nossas demoras e hesitações enquanto nos convida ao arrependimento. Também a equanimidade não é uma virtude distinta da paciência, embora seja considerada especialmente voltada a moderar o aborrecimento que advém da perda de bens exteriores.
A matéria próxima com que a paciência se ocupa é a aflição da mente e a tristeza por conta dos reveses enumerados acima: essa virtude as reprime por inteiro ou então as controla tanto, que elas não excedem as exigências da reta razão por onde, as principais ações da paciência são:

1. Suportar todas as sobreditas adversidades calmamente, de bom grado, com ânimo e em ação de graças, e sem nenhuma murmuração ou queixa.
2. Suportar esses males mesmo não tendo culpa, e mesmo que nos sejam infligidos por aqueles que receberam muitos benefícios de nós.
3. Atribuir todos os nossos problemas e dificuldades unicamente à vontade Divina, não importa por intermédio de quem provenham.
4. Sempre que estivermos feridos ou irritados, voltarmo-nos para Jesus crucificado como estando presente, buscando obter d’Ele a paciência e oferecendo a Ele tudo o que sofremos.
5. Oferecer-se a si próprio, bem no começo de todas as manhãs, a Deus para sofrer não importa o quê, e para suscitar um desejo ardente na alma de sofrer todos os males possíveis em imitação de Cristo.
Nós temos muitas ocasiões para exercitar a paciência a quase todo momento, suportando os males e perdas que nos acometem com respeito a nossa boa reputação, vida e bens exteriores.

Os sinais da paciência são:

1. Suportar com calma as imperfeições dos outros.
2. Não ceder ao rancor quando maltratado pelo próximo.
3. Não murmurar contra as punições divinas.
4. Não evitar a companhia daqueles que cometem injustiça contra nós, mas antes ir ao seu encontro, ter amor por eles e por eles rezar.
5. Em alguma enfermidade, rezar a Deus que aumente nosso sofrimento.
6. Manter silêncio em meio às injustiças, não se desculpar, mas entregar tudo nas mãos de Deus a exemplo de Nosso Senhor, que mesmo quando convocado a Se defender preferiu permanecer em silêncio.

Agora, quem não faria tudo o que está em seu poder para exercer essa virtude com máximo cuidado, considerando a paciência e longanimidade de Deus, que não somente tolera os pecadores com benevolência, mas não cessa de cobri-los com os maiores benefícios? E a vida de Cristo e Sua amaríssima paixão não proporcionam o exemplo supremo de paciência?
Nem deve ser preterido o exemplo dos santos do Antigo e do Novo Testamentos, principalmente de Jó e Tobias e dos incontáveis mártires. Ademais, quem quer que considere atentamente os inomináveis tormentos do Inferno, de que tão frequentemente escapou por conta da infinita misericórdia de Deus, não considerará os aborrecimentos desta vida, não importa quão graves e dolorosos, como de nenhuma importância, e até os tratará como prazeres?
Finalmente, como diz o Apóstolo, “A paciência vos é necessária” (Hebreus 10, 36), pois ela fortalece a fé, governa a paz, auxilia o amor, instrui a humildade, excita o arrependimento, faz satisfação pelos pecados, ata a língua, refreia a carne, resguarda o espírito, aperfeiçoa todas as virtudes e dota-nos ao fim desta vida com a bem-aventurada imortalidade: “Porque agora o que é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, produz em nós um peso eterno duma sublime e incomparável glória.” (2 Coríntios 4, 17).

Apêndice 1 – Sobre a Virtude da Paciência.
[Manual da Vida Espiritual – Conduzindo, por um método fácil e claro,
do início da conversão até ao ápice da santidade] por Pe. Charles Joseph Morotius, monge cisterciense, teólogo e pregador
VIVAT CHRISTUS REX


quarta-feira, 26 de março de 2014

Eis-me aqui

Eis-me aqui.

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus, que prostrado de joelhos em vossa divina presença, vos peço e suplico com o mais ardente fervor, que vos digneis de imprimir em meu coração ardentes sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados com vontade firmíssima de os emendar; enquanto eu, com grande afeto e dor d'alma, considero e medito as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos o que já o santo profeta Davi dizia de Vós, o bom Jesus: "Transpassaram minhas mãos e meus pés; contaram todos os meus ossos". (Sl 21).
VIVAT CHRISTUS REX


terça-feira, 25 de março de 2014

Vede como se amam

Paz e Bem.

Vede como se amam.

“VEDE COMO SE AMAM” – Um dito usado com muita frequência pelos pagãos e hereges se dirigindo aos Cristãos dos primórdios.
A passagem Bíblica que levou os pagãos e hereges a pronunciarem de forma constante e com certa admiração este dito – “VEDE COMO SE AMAM” – é caracterizada pela vivência do Amor e do Perdão, pelos cristãos, anunciada em (Jo 15, 12) – “Este é o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros como eu vos amo”.
Comentário:
Amando ganhamos consciência do que é o cristianismo.  Se o cristão não ama com obras, fracassa como cristão, que é fracassar também como pessoa. Não podemos pensar nos outros homens como se fossem números ou degraus para podermos subir; ou massa para ser exaltada ou humilhada, adulada ou desprezada, conforme os casos. Devemos pensar nos  outros, em primeiro lugar, nos que estão ao nosso lado, como verdadeiros filhos de Deus. Com os filhos de Deus temos que nos comportar como filhos de Deus. O nosso amor deve ser sacrificado, diário, feito de mil detalhes de compreensão, de sacrifício silencioso, de dedicação que não se percebe. Este é o “BOM SEGUIDOR DE CRISTO – BONUS ORDOR CHRISTI” -, que fazia dizer aos que viviam entre os nossos primeiros irmãos na fé: VEDE COMO SE AMAM”. Não falo de um ideal utópico. O cristão não é um sonhador como o srº Tartarin da cidade de Tarascon na França que se empenhava em caçar leões onde não os pode encontrar como por exemplo: Nos corredores de sua casa, um sonhador. Quero falar sempre de uma vida diária e concreta. Da santificação do trabalho, das relações familiares, da amizade. Se não somos cristãos nesses momentos, quando o seremos? O bom perfume do incenso é o resultado de uma brasa que queima sem espetáculo uma grande quantidade de grãos. O “BOM IMITADOR DE CRISTO” faz-se sentir entre os homens, não pelas labaredas de um fogo de palha, mas pela eficácia de um rescaldo de virtude tais como – “JUSTIÇA, LEALDADE, FIDELIDADE, COMPREENSÃO, GENEROSIDADE, ALEGRIA”. Enfim, o servir que conduz ao Amor e ao Perdão de forma segura e fecunda.

VIVAT CHRISTUS REX


Santo Agostinho

Santo Agostinho (354-430) Bispo - Escritor - Teólogo - Filósofo.

O grande Bispo e Doutor da igreja, Santo Agostinho, caminhava um dia na praia,em profundo pensamentos.
Com a maravilhosa agudez de seu gênio, tentava inutilmente compreender o mistério da Santíssima Trindade: O Pai é Deus. O Filho é Deus. o Espírito Santo é Deus.
Mas todas as três Pessoas divinas são um só Deus.
Sua mente esvaía-se nas sombras do mistério, quando improvisamente, apareceu-lhe um gracioso menino, que alegremente se preocupava em enterrar a mãozinha na areia.
O que faz, perguntou o Santo?
Quero colocar neste buraco toda a água do mar.
É impossível! Como pode tão pequeno buraco conter a imensidade do mar?
E como pode sua débil mente conter os altíssimos mistérios de Deus?
"Quem fita o sol, deslumbra-se e quem persistisse em fitá-lo, cegaria. Assim sucede com os mistérios de Deus: quem pretende compreendê-los deslumbra-se e quem se obstinasse em os perscrutar perderia totalmente a fé"   
E o menino desapareceu. Era um anjo.
VIVAT CHRISTUS REX


domingo, 23 de março de 2014

Paz e Bem

Paz e Bem!
Precisamos rezar pela Paz! A Paz é urgente, fundamental, essencial para os homens destes dias. 
Todos terão uma visão espiritual, salvífica quando experimentarem desta Paz, Paz que não esta longe, distante, mas tão perto quanto podemos imaginar! 
Esta Paz esta em meu desejo, em seu desejo, no desejo de todos! Basta-nos não só mais desejá-la mas sim vive-la não esperando que o irmão a pratique, mas sim a praticando! Devemos de ser o primeiro a viver esta Paz que grita em nossa Alma! Grita por liberdade! Devemos libertar esta Paz que esta em nós para que ela atinja o outro, alcance o coração do outro sem reservas e mediações! 
Precisamos todos ao mesmo tempo dar este salto, um grande salto para a Paz! Cristo nosso Senhor daí-nos este entendimento, preencha-nos com esta compreensão que esta acima de todo conhecimento humano! 
Vem Senhor Jesus e nesta quaresma cravai vossa Santa Cruz em nossas Almas tornando-nos livres e prontos para libertar esta Paz que ferve em nossos corações! Liberta-nos dos grilhões do egoísmo e da miséria do que é Santo e Sagrado e ensina-nos a partilhar a Paz que te pedimos. Ensina-nos que a Paz não é algo reservado ao meu ser mas que deve de se estender a todos os homens desta terra de ódios diversos.
Vem Senhor Jesus! 

VIVAT CHRISTUS REX


salvecristorei.blogspot.com.br

São Josemariá Escrivá

São Josemariá Escrivá (1902-1975).

Livro - Forja.

Roga ao Senhor que te conceda toda a sensibilidade necessária para dares conta da maldade do pecado venial; para o considerares como autêntico e radical inimigo da tua alma; e para o evitares, com a graça de Deus.
VIVAT CHRISTUS REX


sexta-feira, 21 de março de 2014

São Josemariá Escrivá

São Josemariá Escrivá (1902-1975).

Livro - Caminho.

Estás a sofrer uma grande tribulação? - Tens contrariedades? Diz, muito devagar, como que saboreando, esta oração forte e viril:
"Faça-se, cumpra-se, seja louvada e eternamente glorificada a justíssima e amabilíssima Vontade de Deus sobre todas as coisas - Amem. Amem".
Eu te asseguro que alcançarás a paz.

VIVAT CHRISTUS REX


terça-feira, 18 de março de 2014

São Josemariá Escrivá

São Josemariá Escrivá (1902-1975).

Livro - Cristo que passa.

"Exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis - Exortamo-vos a não receber em vão a graça de Deus".
Porque a graça divina pode encher as nossas almas nesta Quaresma, desde que não cerremos as portas do coração. Temos de ter estas boas disposições, o desejo de nos transformar realmente, de não brincar com a graça do Senhor.

Não gosto de falar de temor, porque o que move o cristão é o Amor de Deus, que se nos manifestou em Cristo e que nos ensina a amar todos os homens e a criação inteira; mas devemos falar de responsabilidade, de seriedade. Não queirais enganar-vos a vós mesmos: de Deus não se zomba, adverte-nos o mesmo Apóstolo.

É preciso decidir-se. Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a S. Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteiramente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a sua graça e, especialmente neste tempo, a graça de uma nova conversão, de uma melhoria da nossa vida de cristãos.

Não podemos considerar esta Quaresma como uma época mais, repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança.

"Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis: Eis o tempo oportuno, que pode ser o dia da Salvação".
Outra vez se ouvem os apelos do Bom Pastor, o carinhoso chamamento: "Ego vocavi te nomine tuo. Chama-nos a cada um pelo nosso nome", com o nome familiar com que nos tratam as pessoas que nos amam. A ternura de Jesus por nós não cabe em palavras.

Contemplai comigo esta maravilha do amor de Deus: o Senhor vem ao nosso encontro, espera por nós, coloca-Se à beira do caminho, para que não tenhamos outra solução senão vê-Lo! E chama-nos pessoalmente, falando-nos das nossas coisas, que são também as suas, movendo a nossa consciência à compreensão, abrindo-a à generosidade, imprimindo na nossa alma o desejo de sermos fiéis, de podermos chamar-nos seus discípulos!

Basta ouvir essas palavras íntimas da graça, que são como que uma repreensão, tantas vezes afetuosa, para nos darmos conta de que não Se esqueceu de nós durante todo aquele tempo em que, por culpa nossa, nós não O vimos. Cristo ama-nos com o amor inesgotável que cabe no seu Coração de Deus.

Reparai na sua insistência: Ouvi-te no tempo oportuno, ajudei-te no dia da salvação. Já que Ele te promete a glória, o seu amor, e to oferece oportunamente, e te chama - tu que Lhe hás-de dar? Como responderás, como responderei eu também, a esse amor de Jesus, que passa?

"Ecce nunc dies salutis: aqui está, diante de nós, este dia da salvação".
O chamamento do Bom Pastor chega até nós: "Ego vocavi te nomine tuo, Eu chamei-te, a ti, pelo teu nome"!
É preciso responder - amor com amor se paga - dizendo-Lhe: "Ecce ego quia vocasti me - chamaste por mim e aqui estou"!
Estou decidido a que não passe este tempo de Quaresma como passa a água sobre as pedras, sem deixar rasto. Deixar-me-ei empapar, transformar; converter-me-ei, dirigir-me-ei de novo ao Senhor, querendo-Lhe como Ele deseja ser querido.

Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com toda a tua mente Que resta do teu coração - comenta S. Agostinho - para que possas amar-te a ti mesmo? Que resta da tua alma, da tua mente?
"Ex toto - afirma. “Totum exigit te, qui fecit te"; Quem te fez exige tudo de ti".
VIVAT CHRISTUS REX


segunda-feira, 17 de março de 2014

Beato João Paulo II

Beato João Paulo II (1920-2005) - Papa - Encíclica "Dives in Misericordia". 

Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.

Jesus Cristo ensinou que o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a «ter misericórdia» para com os demais. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7) […]. O amor misericordioso, nas relações recíprocas entre os homens, nunca é um ato ou um processo unilateral. Mesmo nos casos em que tudo pareceria indicar que apenas uma parte oferece e dá, e a outra mais não faz do que aceitar e receber […], de fato, também aquele que dá é sempre beneficiado. […] 

Neste sentido, Cristo crucificado é para nós o modelo, a inspiração e o incitamento mais nobre. Baseando-nos neste impressionante modelo, podemos, com toda a humildade, manifestar a misericórdia para com os outros, sabendo que Cristo a aceita como se tivesse sido praticada para com Ele próprio (Mt, 25, 34). […] Ela é realmente um ato de amor misericordioso só quando, ao praticá-la, estivermos profundamente convencidos de que ao mesmo tempo nós a estamos a receber, da parte daqueles que a recebem de nós. Se faltar esta bilateralidade e reciprocidade, as nossas ações não são ainda autênticos atos de misericórdia. Não se realizou ainda plenamente em nós a conversão, cujo caminho nos foi ensinado por Cristo com palavras e exemplos, até à Cruz, nem participamos ainda completamente da fonte magnífica do amor misericordioso que nos foi revelada por Ele. […] 

A misericórdia autenticamente cristã é a mais perfeita encarnação da igualdade entre os homens e, por conseguinte, também a encarnação mais perfeita da justiça. […] Enquanto a igualdade introduzida mediante a justiça se limita ao campo dos bens objetivos e extrínsecos, o amor e a misericórdia fazem que os homens se encontrem uns com os outros naquele valor que é o próprio homem, com a dignidade que lhe é própria. A misericórdia torna-se, assim, elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, num espírito de profundo respeito […]. O amor misericordioso é sobretudo indispensável entre os que são mais próximos: os cônjuges, os pais e os filhos, os amigos; e é de igual modo indispensável na educação e na pastoral.

VIVAT CHRISTUS REX


sábado, 15 de março de 2014

São Cesário de Arles

São Cesário de Arles (470-543) - Monge - Bispo 

Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos.

Algum de vós dirá: Não sou capaz de amar os meus inimigos. Deus não cessa de te dizer nas Escrituras que és capaz, e tu respondes-Lhe dizendo que não és? Reflete comigo: em quem devemos acreditar, em Deus ou em ti? Uma vez que Aquele que é a própria Verdade não pode mentir, que a fraqueza humana abandone desde agora as suas desculpas fúteis. Aquele que é justo não pode ordenar coisas impossíveis, nem Aquele que é misericordioso condenará um homem por algo que este não era capaz de evitar. Nesse caso, a que se devem as nossas hesitações? Ninguém sabe melhor aquilo de que somos capazes do que Aquele que nos tornou capazes. Há tantos homens, tantas mulheres e crianças, tantas jovens delicadas que por amor de Cristo suportaram as chamas, o fogo, o gládio e os animais selvagens de forma imperturbável, e nós dizemos que não somos capazes de suportar insultos de gente estúpida?

Com efeito, se só tivéssemos de amar os bons, que haveríamos de dizer do comportamento do nosso Deus, sobre quem está escrito: De tal modo amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito? (Jo 3,16) Pois que bem tinha o mundo feito para que Deus assim o amasse? Cristo nosso Senhor veio encontrar todos os homens, não somente maus, mas mortos por causa do pecado original; e contudo, amou-nos e entregou-Se a Si mesmo por nós (Ef 5,2). Deste modo, amou também aqueles que não O amavam, como observa o apóstolo Paulo: Cristo morreu pelos culpados (Rom 5,6); e, na sua misericórdia inexprimível, deu este exemplo a todo o gênero humano, dizendo: Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29).

VIVAT CHRISTUS REX


Padres do deserto - Pai Agathon

PADRES DO DESERTO.

Era dito do Pai Agathon que alguns monges vieram procurá-lo, tendo ouvido falar de seu grande discernimento.
Desejando ver se ele perdia a paciência disseram-lhe, "você não é aquele do qual dizem ser um grande fornicador e um homem orgulhoso?" "Sim, é verdade", ele respondeu. Eles continuaram, "você não é aquele Agathon que está sempre dizendo bobagens?", "Sou eu". Novamente, ele disseram, "Você não é Agathon, o herético?" Ao que ele replicou, "Eu não sou um herético." Então eles perguntaram-lhe, "diga-nos, porque você aceitou tudo que atiramos sobre você, mas repudiou este último insulto." Ele replicou. "As primeiras acusações tomei para mim, pois é bom para minha alma. Mas heresia é separação de Deus. Vejam, eu nada tenho para ser separado de Deus." A este dito, eles ficaram surpresos pelo seu discernimento e retornaram, edificados.

VIVAT CHRISTUS REX


quarta-feira, 12 de março de 2014

Tertuliano - Apologia - Capítulo II

TERTULIANO : APOLOGIA - CAPÍTULO II.
Tertuliano nasceu em Cartago no ano 155 dC e aí exercia sua profissão de advogado quando, em 193, converteu-se ao Cristianismo, passando a exercer também a atividade de catequista junto à Igreja.
Sua inteligência e sólida formação jurídica foram claramente demonstradas em suas obras, em que defende os cristãos, apelando por seu direito de liberdade religiosa, perante o Império Romano cruel e perseguidor. Seus argumentos são expostos de forma lógica e polêmica, visando o convencimento das autoridades a quem é dirigida, questionando a "justiça" aplicada contra os cristãos, transportando a apologética do terreno filosófico para o jurídico.
"Com admirável habilidade, Tertuliano censura os processos jurídicos, em voga, do Poder do Estado 'gentio' contra os cristãos: é suficiente o crime do 'nomem christianum' ('nome 'cristão'), para acarretar a condenação. A todos os criminosos concede-se o direito de defesa; aos cristãos, não. Àqueles, a tortura tenta arrancar uma confissão; aos cristãos, uma apostasia. As suspeitas iníquas espalhadas contra os cristãos, Tertuliano as repele como mentiras, expondo, em contraposição, o essencial concernente à fé cristã e à vida das comunidades. Concluindo, declara ser o Cristianismo uma filosofia; mas os filósofos gentios não são obrigados, como os cristãos, a sacrificar e podem até negar os deuses impunemente. Todavia, as crueldades gentílicas não prejudicarão os cristãos; ao contrário, 'o sangue dos cristãos é como semente que brota'" (B.Altaner/A.Stuiber).
"Raramente um discurso de defesa cristão conhecera semelhante precisão de argumentos jurídicos, semelhante rudeza de ironia, semelhantes aspereza de lógica, onde os argumentos são desferidos como golpes certeiros, as fórmulas marteladas, os dilemas inelutáveis, sem concessões à posição dos poderes públicos ou dos filósofos. Para ele [Tertuliano] não basta convencer o adversário: arrasa-o, pisa-o, humilha-o" (A.Hamman).
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Capítulo II - "Se a lei proíbe que alguém seja condenado sem defesa, por que este direito é negado aos cristãos?"
Se, repetindo, é certo que somos os mais malévolos dos homens, por que nos tratais tão diferentemente de nossos companheiros, ou seja, de outros criminosos, sendo justo que o mesmo crime deva receber o mesmo tratamento? Quando os ataques feitos contra nós são feitos contra outros, a esses são permitidos falarem ou contratar advogados para demonstrar sua inocência. Eles têm plena oportunidade de resposta e de discussão.
De fato, é contra a lei condenar alguém sem defesa e sem audiência. Somente os cristãos são proibidos de dizerem algo em sua defesa, na salvaguarda da verdade, para ajudar ao juiz numa decisão de direito. Tudo o que é levado em conta é que o público, com ódio, pede a confissão de um "nome", não o exame da acusação, enquanto em vossas investigações ordinárias judiciais, no caso de um homem que confessa assassinato, ou sacrilégio, ou incesto, ou traição - para se ter ideia do crime de que são acusados - vós não vos contentais em imediatamente emitir uma sentença. Não o fazeis até que examinais as circunstâncias da confissão, qual é o tipo do crime, quantas vezes, onde, de que maneira, quando ele o fez, quem estava com ele e quem tomou parte com ele no crime.
Nada semelhante é feito em nosso caso, embora as falsidades disseminadas a nosso respeito devessem passar pelo mesmo exame para saber quantas crianças foram mortas por cada um de nós, quantos incestos cometemos cada um de nós na escuridão, que cozinheiros, que biltres foram testemunhas de nossos crimes. Ó que grande glória para os governantes que trouxessem à luz alguns cristãos que tivessem devorado uma centena de crianças. Mas, em vez disso, constatamos que mesmo uma inquisição, no nosso caso, é proibida.
Plínio, o Moço, quando era governador de uma província, tendo condenado alguns cristãos à morte, e abalado outros em sua firmeza, mas ficando aborrecido com o grande número deles, procurou, em última instância, o conselho de Trajano, o imperador reinante, para saber o que fazer com eles. Explicou a seu senhor que, com exceção de uma recusa obstinada de oferecer sacrifícios, nada encontrou em seus cultos religiosos a não ser reuniões de manhã cedinho em que cantavam hinos a Cristo e a Deus, confirmando que, em suas casas, seu modo de vida era um geral compromisso de ser fiel a sua religião, proibido-se assassínios, adultério, desonestidade e outros crimes. A respeito disso, respondeu Trajano que os cristãos não deveriam de modo algum ser procurados, mas se fossem trazidos diante dele, Plínio, deveriam ser punidos.
Ó miserável libertação - de acordo com o caso, uma extrema contradição! Proíbe-se que sejam procurados, na qualidade de inocentes, mas manda-se que sejam punidos como culpados. É ao mesmo tempo misericordioso e cruel. Deixa-os em paz, mas os pune. Por que entrais num jogo de evasão convosco mesmo, ó julgamento? Se vós os condenais, por que também não os inquiris? Se não quereis inquiri-los, por que não os absolveis?
Postos militares estão espalhados através de todas as províncias para prenderem ladrões. Contra traidores e inimigos públicos, todo cidadão é um soldado. Buscas são feitas mesmo de seus aliados e auxiliares. Somente os cristãos não devem ser procurados, embora possam ser levados e acusados diante do juiz, se uma busca tiver um resultado diferente do previsto. Deste modo, condenais um homem que ninguém deseja perseguir, quando ele vos é apresentado e que, nem por isso, merece punição. Suponho que não por sua culpa, mas porque, embora seja proibido persegui-lo, ele foi encontrado.
Novamente, neste caso, não concordais conosco sobre os procedimentos ordinários de julgamento de criminosos, porque, no caso de negarem, aplicais a tortura para forçar uma confissão. Aos cristãos somente torturais para fazê-los negarem. É como se considerásseis que se somos culpados de algum crime, nós o negaríamos, e vós com vossas torturas nos forçaríeis a uma confissão. Mas não podeis pensar assim pois, na verdade, nossos crimes não requerem tal investigação simplesmente porque já estais cientes por nossa confissão do nome de nosso crime. Estais diariamente acostumados a isso, sabendo de que crime se trata porque senão exigiríeis uma confissão completa de como o crime foi executado.
Deste modo, agis com a máxima perversidade quando verificando nossos crimes comprovados por nossa confissão do nome de Cristo, nos levais à tortura para obter nossa confissão que não consiste senão em repudiar tal nome, e que logo deixais de lado os crimes de que nos acusais quando mudamos nossa confissão. Suponho que, embora que acreditando que sejamos os piores dos homens, não desejais que morramos. Não há dúvida de que, por conseguinte, estais habituados a compelir o criminoso a negar e a ordenar o homem culpado de sacrilégio a ser torturado se ele persevera em sua confissão. É esse o sistema? Mas, então, não concordais que sejamos criminosos, e nos declarais inocente, e como inocentes que somos, ficais ansiosos para que não perseveremos na confissão que sabeis que vos fará assumir uma condenação por necessidade, não por justiça.
"Sou cristão" - o homem brada. Ele está lhe dizendo o que é. Vós, porém, desejaríeis ouvi-lo dizer que não o é. Assumindo vosso cargo de autoridade para extorquir a verdade, fazeis o máximo para ouvir uma mentira nossa. "Eu sou o que me perguntais se eu sou" - ele diz. Por que me torturais como criminoso? Eu confesso e vós me torturais. O que me faríeis se tivesse negado? Certamente a outros vós não daríeis crédito se negassem. Quando nós negamos, vós logo acreditais. Essa perversidade vossa faz suspeitar que há um poder escondido no caso, sob a influência do qual agis contra os hábitos, contra a natureza da justiça pública, até mesmo contra as próprias leis. Pois que - salvo se estou errado - as leis obrigam a que os malfeitores sejam procurados e não que sejam acobertados. A lei foi feita para que as pessoas que praticarem um crime sejam condenadas, e não absolvidas. Os decretos do Senado, as instruções dos vossos superiores expõem isso claramente. O poder do qual sois executores é civil, não uma tirânica dominação. Entre tiranos, de fato, os tormentos são utilizados para serem aplicados como punições; entre vós são mitigados como um instrumento de interrogatório. Guardai vossa lei como necessária até que seja obtida a confissão. E se a tortura é antecipada pela confissão, não há necessidade dela. A sentença foi passada. O criminoso deve ser entregue ao castigo devido e não libertado.
De acordo com isso, ninguém anseia pela absolvição do culpado, não é certo desejar isso, e assim ninguém nunca deve ser compelido a negar. Bem, julgais um cristão um homem culpado de todos os crimes, um inimigo dos deuses, do Imperador, das leis, da boa moral de qualquer natureza. Contudo vós o obrigais a negar, porque, assim, podeis absolvê-lo, o que sem sua negação não podeis fazê-lo. Vós agis rápido e desmereceis as leis. Quereis que ele negue sua culpa, porque podeis sempre, mesmo contra sua vontade, isentá-lo de censura e livrar-lhe de toda culpa em referência a seu passado. De onde vem essa estranha perversidade da vossa parte? Como não refletis que uma confissão espontânea é mais digna de crédito do que uma negação obrigada? Considerai que, quando compelido a negar, a negação de um homem pode ser feita de má fé, e se absolvido, ele pode, agora e ali, logo que o julgamento termine, rir da vossa hostilidade; e um cristão igualmente.
Vendo, então, que em tudo agis conosco diferentemente de que com outros criminosos, preocupados por um único objetivo - o de obter de nós o nosso nome (na verdade, não nos cabe dizer que os cristãos não existam) - fica perfeitamente claro que não há crime de nenhuma espécie nesse caso, mas simplesmente um nome que um determinado sistema - mesmo indo contra a verdade - persegue com sua inimizade. E age assim principalmente com o objetivo de se assegurar que os homens não venham a ter como certo o que conhecem como certo e de que esse sistema é completamente desconhecedor.
Consequentemente, também, acontece que eles acreditam em coisas sobre nós das quais não têm prova, sobre as quais não estão inclinados a pesquisar, incomodados com as perseguições. Eles gostariam mais de confiar, pois está provado que nada há de fundamentado contra os cristãos. Com esse nome tão hostil àquele poder rival - seus crimes sendo presumidos, não provados - eles poderiam ser condenados simplesmente por causa de sua própria confissão. Assim, somos levados à tortura se confessamos e somos punidos se perseveramos, mas se negamos somos absolvidos porque toda a hostilidade é contra o nome.
Finalmente, por que ides constar em vossas listas que tal homem é cristão? Por que não também que ele é um criminoso, por que não um culpado de incesto ou de outra coisa vil de que nos acusais? Somente em nosso caso, ficais incomodados ou envergonhados de mencionar os nomes verdadeiros de nossos crimes. Se ser chamado "Cristão" não implica em nenhum crime, esse nome é seguramente muito odiado quando por si só constitui crime.
VIVAT CHRISTUS REX
salvecristorei.blogspot.com.br

terça-feira, 11 de março de 2014

Tertuliano - Apologia - Capítulo X

TERTULIANO : APOLOGIA

Tertuliano nasceu em Cartago no ano 155 dC e aí exercia sua profissão de advogado quando, em 193, converteu-se ao Cristianismo, passando a exercer também a atividade de catequista junto à Igreja.

Sua inteligência e sólida formação jurídica foram claramente demonstradas em suas obras, em que defende os cristãos, apelando por seu direito de liberdade religiosa, perante o Império Romano cruel e perseguidor. Seus argumentos são expostos de forma lógica e polêmica, visando o convencimento das autoridades a quem é dirigida, questionando a "justiça" aplicada contra os cristãos, transportando a apologética do terreno filosófico para o jurídico.

"Com admirável habilidade, Tertuliano censura os processos jurídicos, em voga, do Poder do Estado 'gentio' contra os cristãos: é suficiente o crime do 'nomem christianum' ('nome 'cristão'), para acarretar a condenação. A todos os criminosos concede-se o direito de defesa; aos cristãos, não. Àqueles, a tortura tenta arrancar uma confissão; aos cristãos, uma apostasia. As suspeitas iníquas espalhadas contra os cristãos, Tertuliano as repele como mentiras, expondo, em contraposição, o essencial concernente à fé cristã e à vida das comunidades. Concluindo, declara ser o Cristianismo uma filosofia; mas os filósofos gentios não são obrigados, como os cristãos, a sacrificar e podem até negar os deuses impunemente. Todavia, as crueldades gentílicas não prejudicarão os cristãos; ao contrário, 'o sangue dos cristãos é como semente que brota'" (B.Altaner/A.Stuiber).

"Raramente um discurso de defesa cristão conhecera semelhante precisão de argumentos jurídicos, semelhante rudeza de ironia, semelhantes aspereza de lógica, onde os argumentos são desferidos como golpes certeiros, as fórmulas marteladas, os dilemas inelutáveis, sem concessões à posição dos poderes públicos ou dos filósofos. Para ele [Tertuliano] não basta convencer o adversário: arrasa-o, pisa-o, humilha-o" (A.Hamman).
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Capítulo X - "Vós nos acusais: 'Não adorais os deuses e não ofereceis sacrifícios aos imperadores'"

Sim, não oferecemos sacrifícios a outros pela mesma razão pela qual não os oferecemos a nós mesmos, ou seja, porque vossos deuses não são, de modo algum, referenciais para nossa adoração. Por isso, somos acusados de sacrilégio e de traição. Esse é o principal fundamento de vossa perseguição contra nós. Sim, é toda a razão de nossa ofensa. É digna, então, de exame a respeito, se não forem nossos juizes a prevenção e a injustiça, pois a prevenção não leva a sério descobrir a verdade, e a injustiça a rejeita simples e totalmente.

Não adoramos vossos deuses porque sabemos que não existem tais divindades. Eis o que, portanto, deveríeis fazer: deveríeis nos intimar a demonstrar a inexistência delas, e, então, provar que elas não merecem adoração, pois somente se vossas divindades fossem comprovadamente verdadeiros deuses, haveria toda obrigação de lhes serem rendidas homenagens divinas.

Punição, igualmente, mereceriam os cristãos, se ficasse evidente que aqueles aos quais recusam adoração são verdadeiramente divinos. Vos dizeis: são deuses. Nós negamos e apelamos para vosso próprio entendimento a respeito. Que ele nos julgue, que ele nos condene, se é incapaz de negar que todas essas vossas divindades não passam de pessoas humanas.

Se vosso entendimento se atreve a negar isso, será refutado por vossos próprios livros de histórias primitivas, pelos quais tomou ciência delas, pois esses livros se constituem incontestáveis testemunhas até nossos dias, seja das cidades onde elas nasceram, seja das regiões nas quais elas deixaram marcas de suas andanças, bem como, comprovadamente elas foram enterradas.

Examinarei agora, um por um, a esses vossos deuses tão numerosos e tão diferentes, novos e antigos, gregos, romanos, estrangeiros, de escravos e de adotados, privados e públicos, machos e fêmeas, rurais e urbanos, marítimos e militares? Não. É inútil até pesquisar todos os seus nomes, de modo que me contento com um resumo, e isso não para vossa informação, mas para que tenhais em mente o que colocastes em vossa coleção, porque indubitavelmente agis como se tivésseis esquecido tudo sobre eles.

Nenhum de vossos deuses é mais antigo do que Saturno. Dele fizestes provir todas as vossas divindades, mesmo aquelas de maior dignidade e mais conhecidas. O que, então, puder ser provado sobre o primeiro, poderá ser aplicado àqueles que dele provieram.

De tempos tão primitivos quanto nos informam os livros, nem o grego Diodoro ou Thallos, nem Cássio Severo nem Cornélio Nepos, bem como nenhum outro escritor que escreveu sobre as coisas sagradas primitivas, se aventurou a dizer que Saturno era alguém mais senão um homem. Tanto quanto esse assunto depende dos fatos, nada mais encontro digno de fé do que isso: sabemos o local no qual Saturno se estabeleceu na própria Itália, após muitas expedições e após compartilhar da hospitalidade da Ática, obtendo cordiais boas vindas de Jano ou Janis como os Sálicos o chamavam. A montanha na qual ele morou foi chamada Satúrnio. A cidade que ele fundou foi denominada Satúrnia até aos nossos dias. Por fim, toda a Itália, após ter surgido com o nome de Enótria, foi chamada Satúrnia por causa dele. Foi ele que por primeiro vos ensinou a arte de escrever e de cunhar moedas. Daí, aconteceu que ele passou a governar o Tesouro Público.

Mas, se Saturno foi um homem, teve, sem dúvida, uma origem humana e tendo uma origem humana não foi rebento nascido do céu e da terra. Como seus pais eram desconhecidos, não era incomum que tenha se chamado filho desses elementos dos quais nós todos parecemos nos originar.

Quem não fala do céu e da terra como de um pai e de uma mãe numa forma de veneração e homenagem? Não há até o costume, ainda existente entre nós, de dizer que alguém que nos é estranho ou que surgiu inesperadamente em nosso meio caiu dos céus? Do mesmo modo, aconteceu com Saturno, onde apareceu como um hóspede repentino e inesperado - porque o hóspede recebe em todo o lugar a designação de nascido do céu. Mesmo a tradição popular chama de filhos da terra as pessoas de parentesco desconhecido.

Eu não sei quantos homens naqueles tempos primitivos eram levados a assim procederem quando admirados pela visão de alguém estranho que surgia em seu meio, considerando-o divino, já que naquelas eras distantes até homens de cultura transformavam em deuses pessoas que eles sabiam terem morrido como homens, um dia ou dois antes, movidos pela tristeza geral que lhes acometia.

Que essas observações de Saturno, tão concisas como são, sejam suficientes. Assim, também, pode-se provar que Júpiter era certamente homem, já que nascido de homem, e que uma após outra, todas essas divindades eram mortais como o primitivo rebento.

VIVAT CHRISTUS REX


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Padre Francesco Bemonte

Padre Francesco Bemonte - Presidente da Associação Internacional de Exorcistas. São Pio de Pietrelcina, como também o beato carmelita e...